Marisa Monte - Imprensa

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PROJETO

    RELEASE MM

    Novembro de 1988

     

     

    Conheci a Marisa Monte com 18 anos, no final de 1985, no Rio de Janeiro. Recebi-a, atendendo um pedido de minha irmã, amiga da mãe de Marisa, que queria uma orientação sobre professores e escolas de canto de Roma, onde eu estava morando, e para onde Marisa estava indo estudar. A garota estudava desde os 14 anos e queria ser cantora de ópera, mas gostava e tinha boa cultura de jazz e música brasileira. Dei-lhe alguns nomes e endereços, voltei para Itália e não a vi mais. Um dia em Roma, meses depois, fiquei sabendo dela através da jornalista Monica Falcone. Marisa estava indo estudar em Veneza, passando uns tempos em casa de amigos e me contou que aqueles poucos meses em Roma tinham sido suficientes para ela entender que não seria feliz vivendo fora do Brasil, que para fazer carreira no mundo lírico tinha que viver no exterior, que tinha achado uma chatice acadêmica a sua breve passagem por academias e professores italianos. Ia voltar para o Brasil. Mas no dia seguinte faria uma apresentação, um showzinho meio improvisado, num bar veneziano, acompanhada somente pelo violão do amigo Roberto Bortolucci, simpático dublê de músicos e cameriere, casado com uma Rosa brasileira, apaixonado pela MPB e sabedor de ritmos e harmonias das principais canções de Chico, Caetano, Milton, Gil, etc.

     

    Insensata, instintiva e intuitivamente, parti para Veneza. Tinha-a ouvido apenas cantarolar em minha casa e sentindo apenas um belo timbre. Em veneza, um pequeno bar aberto para calçada, som e microfone meio qualquer nota. Ela começa a cantar. Canta bem à beça. O púbilco, umas cinquentas pessoas, gosta e aplaude. Cada vez, a cada música, mais. Mais gente se juntando do lado defora do bar e, no final, gente até a beira do canal, aplaudindo. A garota não tinha apenas uma bela voz, cantava muito bonito, com estilo. Voltei a roma.

     

    Voltei ao Brasil em março de 87 e Marisa me procurou para dizer que tinha decidido cantar profissionalmente, que tinha um produtor - Lula Buarque de Hollanda – e que ia fazer um show dirigida pela Rogéria Werneck. Queria bater um papo sobre repertório.

    Ouvindo-a cantar Tim, Tom, Caetano, Callas, Roberto, Billie..- sorry, Regina – me ofereci para dirigi-la. Começamos a ensaiar somente com um jovem pianista aluno de Luiz Eça, depois de formar um início de repertório que tinha um pouco de blues, samba, bossa nova, funk. Uns dois meses nisso, buscando caminhos e ritmos, timbres e expressões, exercitando estilos. Chamamos um baixista, um amigo percussionista de Marisa veio e indicou o baterista e Lula contratou todos para os ensaios da temporada de 4 dias no Jazzmania, dois meses depois.

     

    No dia 23 de setembro ela estréia no Jazzmania quase cheio. O som do microfone estava ruim, a banda bem, e depois de um primeiro set nervoso e muito apaludido, voltou com “Negro Gato” levado em blues pesado e arrasou. Entre os que aplaudiram mais aplaudiam Sylvia e Monique Gardemberg, Marina, Patricia Travassos, Euclydes Marinho, Léo Jayme. Na segunda noite o som melhorou e ela fez um ótimo show, cantando “Speak Low”, de Kurt Weil; “Chocolate”, de Tim Maia; uma tórrida versão blues de “Samba e Amor”, de Chico Buarque; “Cartão Postal”, um belo blues de Rita lee e Paulo Coelho, do início dos anos 70, que Marisa descobriu e inventou um jeito mais moderno de interpretar, entre outras de diversos gêneros, umas mais e outras menos adequadas a sua voz e temperamento. Mas experimentando de tudo, das mais varias praias, em busaca de um estilo capaz de expressar aquilo tudo, tão diferente, que ela gotava de cantar, harmonizar tudo isso com seus vastos recursos vocais, sua boca técnica adquirida através do longo e duro aprendizado lírico, sua intensa musicalidade e sua infatigável e quase obsessiva curiosidades de tudo ouvir e aprender com os grandes artistas de todos os tempos, escolas e latitudes. Na terceira manhã, toda a primeira página do Cadreno B do “Jornal do Brasil” era ocupada por uma crítica de Alfredo Ribeiro e uma grande foto de Marisa com a classica manchete: “Nasce uma estrela”. Ele anunciava a chegada de uma futura grande cantora e dava cotação máxima. De noite o Jazzmania superlotou e não havia lugares nem para o dia seguinte. Nas duas noites Marisa cantou muito bem, foi aplaudidíssima e festejada por gente como Maria Bethania, Perfeito Fortuna, Bernado Vilhena, Marília Pera, Bruno Barreto, Regina Casé e Caetano Veloso. Bethania, assim como Marina, elogiaram-lhe, além do timbre bonito e musicalidade, a personalidade, o não imitar ninguém. ”Quero cantar para alegrar e emocinar as pessoas”, diz Marisa.

     

    Quase dois meses depois, repertório um pouco modificado, banda acrescida de um trumpetista, ela voltava ao Jazzmania para outras quatro noites. Já tudo sold out no primeiro dia, até o final. Belas apresentações, mais seguras, aplaudidíssimas, até mesmo de pé, pelo público, o que não é muito comum em bares. Ótima crítica de Paulo Adário no JB. O show se chamava “Tudo Veludo” e tinha na canção de Lobão e Bernardo, triste e dramática, uma das mais bonitas do espetáculo.

     

    Em janeiro de 88, saudada como uma das revelações do ano pela imprensa carioca, ela fez sua primeira temporada em teatro, na Casa de Cultura Laura Alvim. Em pleno verão, o ar condicionado quebrou e o calor era insuportável. Mas não saía ninguém, todos encharcados de suor, todas as noites de duas semanas, com   as lotações se esgotando com dias de antecedência. Foi vista e ouvida por Sérgio Augusto, que escreveu uma página inteira na “Folha de São Paulo”, assombrado com a nova cantora e - entre outros entusiasmos - saudando-a como “o maior talento vocal surgido desde Gal Costa”. Gal Ouviu-a depois, em temporada no Teatro Ipanema. Elogiu-lhe calorosamente a voze, na Argentina, deu entrevista dizendo que Marisa era,  ao lado de Cazuza, das melhores coisas entre os mais novos da música brasileira e, embora não tivesse ainda um repertório bem definido, “va sin duda a ocupar  un  espacio importante” . Marisa ocupou um espaço no palco pela primeira vez aos 15 anos, numa    montagem do “Rock Horror Show” dirigida por Miguel Falabella com alunos do colégio Andrews, em1982. Depois fez pequeno papel cantando no musical “Azul”, de André Felipe Mauro, e algumas apresentações semiprofissionais nos bares O Viro da Ipiranga e Double Dose, na Zona Sul do Rio.

     

    Nos dias 4 e 5 de março de 88, se apresentou pela primeira vez em São Paulo, como convidada no Nouvelle Cuisine, no Grande Auditório do MASP. A platéia superlotada aplaudiu tanto que, nas duas noites, eles tiveram que bisar “Bess you is my woman now”, da ópera “Porgy and Bess”, de Gershwin. O dueto de Marisa e Carlos Fernando   foi saudado com entusiasmo na imprensa paulista e duas semanas depois ela fazia 5 noites superlotadas no Aeroanta com seu “Aeroshow”, uma versão mais compacta  do espetáculo que faria na semana seguinte no Grande Auditório do MASP, onde durante a temporada havia sempre mais de 200 espectadores além da lotação espalhados pelo chão e corredores, aplaudindo de pé, todas as noites. Excelentes críticas e primeira polêmica na imprensa. O show chamava-se “Cantando na Avenida”.

     

    Depois, Teatro Ipanema: duas semanas sold out e ótimas críticas no Globo, JB, Última Hora. “Um talento absolutamente extraordinário” (Paulo Adário – JB). No seu “Show do Ipanema”, Marisa acrescentou o sam-enredo “Lenda das Sereias”em arranjo afro e musicou um pequeno poema de Octavio Paz para a abertura do “Blanco”. A banda vinha acrescidade uma guitarra e três backing-vocais a acompanham desde a temporada do Laura Alvim.

     

    Em Belo Horizonte apresentou-se no Cabaret Mineiro para três platéias lotadas com o mesmo sexteto, sem as garotas do vocal. Críticas entusiasmadíssimas. Voltou a São Paulo com o show “Volta a Sampa”. Em julho fazendo uma semana no MASP e outra no Teatro Cultura Artística. Mesma coisa. No final de setembro apresentou cinco espetáculos no Teatro Villa-Lobos do Rio, montados especialmente para serem gravados ao vivo pela EMI-Odeon e filmados para um especial da Rede Manchete. O primeiro disco de Marisa é resultado destas gravações ao vivo realizadas nos dias 30 de setembro, 1, 2 e 3 de outuhro de 88, No estudio, entre as diversas versões de 16 cancoes, foram selecionadas as 11 que compoem este disco, que receberam pequenas correções e acréscimos instrumentais e alguns contracantos que Marisa criou sobre o material gravado. No estúdio, com outros músicos, foi gravada - sob inspiração de João Gilberto ¬uma nova versão de "Speak low" ao vivo.

     

    Novembro de 88

     

    Nelson Motta