Conversas com Marisa

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Conversa com Marcos Augusto Gonçalves

Marcos Augusto: Você ficou cinco anos sem lançar um disco. Eu queria que você falasse um pouco disso, porque é um tempo longo para o artista ficar, não distante, propriamente, mas sem um trabalho novo. Da última vez que você lançou um disco não tinha nem o Ipad no mundo.

Marisa: Realmente, tem umas evoluções tecnológicas acontecendo. Em 2006, eu lancei os dois discos e fiz uma turnê de dois anos. Depois, quando eu terminei essa turnê, fiz um CD ao vivo e um DVD que mostrava o meu cotidiano de cantora contemporânea, registrada desde o momento do lançamento do disco até o fim da turnê. Em seguida, veio o filme “O Mistério Do Samba”, que produzi e com o qual me envolvi muito, tanto na edição como no lançamento... e tive mais uma filha. Nesse último ano, consegui gravar sem pressa, sem pressão, num tempo bem incorporado ao cotidiano. Pude deixar esse tempo da vida contribuir a favor do disco.

 

Marcos Augusto: Você tinha ideia de mais ou menos quando você faria o disco?

Marisa: Acho que isso veio naturalmente. A vontade de gravar, de registrar e botar as músicas no mundo não é uma coisa que vem de fora. Não comecei o disco com uma data para lançar.

 

Marcos Augusto: Teve um momento em que você esqueceu o assunto disco, quando você teve sua filha?

Marisa: Teve um período em que eu não estava pensando em disco, mas eu não paro de compor, não paro de tocar violão, nem de viver a música. Isso é uma coisa que faz parte da minha vida. Se eu não estou aqui dentro do estúdio no cotidiano, gravando, eu estou sempre fazendo música. E muitas delas são justamente desse período em que fiquei mais calma, com mais tempo, porque eu acho que você tem que ter o silêncio para preenchê-lo. Quando você está com a vida muito corrida - muita zoeira, muita passagem de som, muito show - e chega no hotel, você quer ficar quieta, não quer continuar tocando e cantando. Você já está cansada, quer ler um livro e fazer, sei lá, tricô... uma atividade silenciosa... Eu sempre precisei dessa alternância de intensidade para a minha criação. A única vez em que emendei um trabalho no outro foi quando eu gravei “Barulhinho Bom”, um disco ao vivo do “Cor-De-Rosa E Carvão”. Não foi uma experiência totalmente prazerosa e eu acho que quando eu trabalho com prazer tenho mais chances de fazer as pessoas sentirem esse prazer me ouvindo.

 

Marcos Augusto: Foi bom para você ficar ligada no que está acontecendo, conhecer o trabalho de novos cantores e cantoras?

Marisa: Vi muitas experiências que as pessoas estavam fazendo, lançamentos com a interação do público, através da internet...não só conteúdos artísticos.

 

 

 

Marcos Augusto: Foi um período em que isso se intensificou muito, né?

Marisa: Eu acho que de uns cinco anos para cá...

 

Marcos Augusto: Porque o modo de produção e divulgação da música já vem mudando há algum tempo, e nesse período não sei se deu uma acelerada, mas ficou clara a possibilidade de se trabalhar com essas novas mídias. Você passou a fazer isso agora...

Marisa: As redes sociais cresceram muito nos últimos cinco anos. A internet já existia e eu mesma já estava presente nela com o meu site, sei lá, acho que há uns dez anos. O site já teve várias caras, vários momentos e várias reformulações. Eu tinha contato com o público através de um fórum dentro dele, mas essa coisa de Facebook, Twitter e Orkut é mais recente, do final dessa turnê pra cá.

 

Marcos Augusto: Muda a sua relação com o público, né?

Marisa: Acho que sempre houve canais em que isso acontecia, mas o canal mais direto sempre foi o palco, porque você está ali. A minha carreira foi muito construída em cima dessa relação direta com o público porque eu sempre fiz turnês enormes, mesmo antes do primeiro disco. Fiquei conhecida pelo meu trabalho no palco e essa é uma relação muito direta, muito sólida.

 

Marcos Augusto: É o que você mais gosta de fazer?

Marisa: É uma grande motivação.

 

Marcos Augusto: É o que menos parece trabalho?

Marisa: Não acho que seja trabalho estar ali no palco com todo mundo cantando junto comigo. O trabalho para mim é fazer a mala, viajar, ficar dias longe de casa, pegar um avião de doze horas para fazer um show de duas horas. O trabalho mesmo é todo esse esforço para fazer um pouquinho de música. É a parte que não é visível aos olhos do público.

 

Marcos Augusto: Poderia prescindir do disco?

Marisa: Acho que o disco é uma ferramenta complementar e acho que ele tem a função de consolidar um repertório novo, além de ter um alcance muito maior do que o show. Só fui lançar disco com dois anos de carreira. Começou a me incomodar não ter disco porque eu queria estar acessível, você não consegue estar em turnê o tempo inteiro, em todos os lugares. Hoje em dia, então, com a internet, a minha música pode chegar a lugares que eu nunca chegaria antes, nem com CD físico. Fiz shows em vários lugares, como a Coreia, Macedônia e Macau, para públicos grandes, e as pessoas conheciam a minha música. Se não fosse pela música gravada, eu certamente não estaria lá.

 

Marcos Augusto: O disco é mais um conceito do que propriamente o disco físico...

Marisa: Ele é mais duradouro. O disco vai permanecer mesmo depois que eu não estiver mais aqui. Por outro lado, acho que a relação direta com o público é a maneira mais sólida de se construir uma relação. Da mesma maneira, a nossa conversa aqui está contribuindo muito mais para a nossa relação do que se você estivesse ouvindo a minha música e eu lendo os seus artigos. É uma coisa real, palpável, entendeu?

 

Marcos Augusto: Posso fazer uma pergunta sobre o disco propriamente? Por que não teve um samba dessa vez?

Marisa: Você é a primeira pessoa que me pergunta isso. Eu sou carioca, o samba é uma linguagem com a qual me sinto íntima, mas talvez isso tenha acontecido justamente porque o último disco foi exclusivamente de sambas. Nos shows, porém, eles sempre terão espaço.

 

Marcos Augusto:  O repertório tem muitas canções em parceria com o Arnaldo Antunes e com o Carlinhos Brown. Por que não aconteceu o show do Tribalistas?

Marisa: O Tribalistas não nasceu com a intenção de se tornar um grupo. Cada um já tinha sua história, sua carreira.

 

Marcos Augusto: O disco tem certas músicas que soam como Tribalistas...

Marisa: O Arnaldo, Carlinhos e eu já existíamos como núcleo de criação havia dez anos e continuamos juntos até hoje. Somos amigos, parceiros e admiramos uns aos outros. Quando criamos o projeto Tribalistas, a gente queria realmente apenas fazer o disco. Meu filho nasceu na mesma época que o CD foi lançado e a repercussão do trabalho foi tão grande que precisaríamos fazer, sei lá, duzentos shows. Eu não tinha condições de fazer a turnê com o bebê pequenininho. O projeto já tinha sido um sucesso no Brasil e no mundo inteiro, na Itália, em Portugal, na Espanha... Depois, quando o meu filho já estava um pouquinho maior, o Arnaldo e o Brown já estavam mergulhados em seus novos trabalhos e não dava mais. Não descarto a possibilidade de a gente se encontrar e fazer alguma coisa especial mais adiante. Mas, se a gente fizer só um ou dois shows, nunca vai ser o suficiente. Tribalistas não dá para ser pouco, entendeu?

 

Marcos Augusto: E esse disco tem algum significado especial para você, em termos de expectativa, porque eu imagino que num período relativamente longo, sem lançar disco, você fica com receios. Você está segura com o disco? Acha que a sua relação com a imprensa pode ser complicada ou não?

Marisa: Eu não tenho controle do que as pessoas vão achar, então, se eu estiver feliz e inteira, já é bastante. Se eu me dediquei, fiz o meu melhor...  não posso ser melhor do que o meu melhor nesse momento. Acho que as pessoas vão gostar, mas não sei como vai ser a receptividade na imprensa.

 

Marcos Augusto:  Com o passar do tempo, e com a confirmação da qualidade do seu trabalho, você ficou numa posição quase do que eram as grandes cantoras quando você começou. Então, você hoje é uma Gal, uma Bethânia, uma Elis... é uma referência para as novas cantoras, não apenas como artista, mas como uma pessoa bem sucedida. E isso cria de fato uma expectativa quase inatingível. Você sente que o seu público está mudando, está mais amplo?

Marisa: Minha música sempre teve essa vocação popular. Antes mesmo de lançar o meu primeiro disco, a fila para o meu show dava voltas no quarteirão do Masp. Minha linguagem sempre foi direta, clara, simples. No primeiro disco tinha "Bem Que Se Quis", "Xote Das Meninas", "Chocolate". No segundo, "Beija Eu", "Eu Sei", "Ainda Lembro". Claro que tem um contato com uma poesia mais sofisticada, como em "Diariamente", "Bem Leve" ou "Maria De Verdade". E eu gosto disso também. Grande parte dos artistas de que gosto é direta, como Roberto Carlos, Tim Maia, Jorge Ben, Cole Porter e Beatles. Acho uma qualidade você conseguir ser simples. Você pode abordar questões profundas de uma forma simples. Dizem que sou cult, mas eu nunca tive a intenção de ser cult, no sentido de fazer música para poucos. Às vezes, acho que a minha música se confunde com a minha postura reservada. E isso cria um paradoxo.

 

Marcos Augusto: Talvez porque você seja uma pessoa que, digamos, não vem de uma área popular...

Marisa: Minha forma de expressão é muito natural para mim e eu acho muito legal que eu consiga ser tão popular sem necessariamente precisar me submeter a todas as coisas que se espera de um artista popular. Vários momentos na minha carreira são muito fora da curva. Por exemplo, o primeiro disco foi um ao vivo, e Tribalistas, mesmo sem entrevista e turnê, vendeu três milhões de cópias. É um dos projetos mais populares de que já participei e também foi o que ficou mais longe de toda a exposição.

 

Marcos Augusto: E por que você acha que isso acontece?

Marisa: Pela força da música. Acho que o esforço que eu faço para ser clara, como estou fazendo aqui falando com você, contribui muito também. Eu gosto da palavra bem dita e, como a voz é o único instrumento que articula palavras, eu gosto que elas sejam entendidas. Gosto de potencializar a palavra cantada e isso me ajuda a me comunicar com as pessoas, através das canções. Eu gosto mais de gente que pensa bem e diz bem do que de gente que canta bem. Gosto de gente que se faz entender.

 

Marcos Augusto: Porque de certa forma isso é a música popular, né?

Marisa: Eu faço a mesma coisa que você. A gente trabalha com comunicação. Você não quer que o seu livro seja lido, que todo mundo viaje naquilo? Que as pessoas entendam e se entreguem àquilo? Então, se você vai escrever uma coisa que é para meia dúzia, você não precisa publicar, tá ótimo. Eu também poderia fazer música e não gravar, mas eu quero me comunicar com as pessoas. Essa é a finalidade de se fazer uma carreira, de fazer música publicamente.

 

 

 

Marcos Augusto: Você tem a capacidade de fazer isso. Não basta querer, isso é uma coisa meio inexplicável. A gente conhece pessoas de talento, enfim, que chegam num ponto e não vão mais além. Não se sabe direito por quê.

Marisa: É porque são muitos talentos diferentes. Esse não é o único talento necessário. Tem, claro, o talento musical, o talento para se relacionar com as pessoas com quem se trabalha, saber articular. Enfim, tudo é comunicação.

 

Marcos Augusto: É, tem uma coisa pessoal, um carisma, sei lá o quê…

Marisa: Isso eu não sei, não tem explicação. É bem mais subjetivo.

 

Marcos Augusto: E você acha que você trabalha demais, não?

Marisa: Não, eu não acho que eu trabalhe demais, mas sou muito produtiva. Hoje eu sou uma mãe de família, então eu tenho mais tempo e disponibilidade para outras coisas que são valorosas para mim. Isso não é uma questão só minha, mas de muitas mulheres que entraram no mercado de trabalho. Seja a dentista, a advogada, a secretária, a garçonete... Eu quero ter tempo para a minha família e, ao mesmo tempo, claro, continuar tendo espaço para a minha profissão. Desde que eu tive filhos eu tento buscar um equilíbrio. Não quero ficar dois meses na estrada, três vezes por ano.

 

Marcos Augusto: Você hoje é uma pessoa mais madura do que era e, hoje, você sente essa maturidade, como eu imagino que outras pessoas sintam também. Você acaba, de alguma maneira, aprendendo a economizar algumas coisas, não se desgastar tanto. O pessoal de futebol fala que o jogador mais veterano conhece os atalhos do campo, o clichê da crítica. O fulano já não corre mais, mas ele conhece os atalhos…

Marisa: Falam muito, por exemplo, que quando comecei eu era mais visceral. Eu faço essa analogia com o bebê vindo ao mundo: você grita e com o tempo você aprende a falar. Hoje em dia, a minha interpretação é muito mais coloquial, como uma conversa aqui, e eu acho que isso é uma consequência da maturidade.

 

Marcos Augusto: O seu primeiro cd tem coisas de virtuosismo, de canto, assim…

Marisa: É, eu estava vindo ao mundo, eu tinha dezenove anos. Mas acho que com o tempo fui aprendendo a falar e a botar o tom mais na conversa. Outro dia vi alguém falando que se ele soubesse que a maturidade era tão boa, ele tinha se acelerado para chegar logo. Eu concordo. Eu acho que esse disco todo, desde o título, reflete muito um pensamento meu sobre o bem viver, que é desfrutar mais da vida. É ter liberdade, é ter tempo, poder fazer escolhas, ouvir seu coração, saber estar onde você se sente confortável. Essa busca individual e intransferível da felicidade... São questões que a maturidade traz. "Seja Feliz", "Hoje Eu Não Saio Não", "O Que Se Quer", "O Que Você Quer Saber De Verdade" e "Amar Só Pode Fazer Bem", por exemplo, falam disso. Acho que eu não pensei nisso antes de fazer o disco, mas depois, olhando pra ele, é notória a presença dessa vontade de bem viver. Não sei se você vive isso também, mas as urgências são diferentes.

Marcos Augusto: E os medos, aumentam com a maturidade?

Marisa: Os medos não aumentam, eles mudam, né? Depois que você tem filho, você fica muito responsável…

 

Marcos Augusto: Seu filho mais velho está com que idade?

Marisa: Meu filho mais velho tem oito e a minha filha menor vai fazer três. Você tem uma responsabilidade enorme com aqueles seres que você botou no mundo. Você quer poder assisti-los e prepará-los da melhor maneira possível para a vida adulta. Eu sempre fui muito cuidadosa. Sempre quis me preservar, nunca tive tendência destrutiva e sempre tive noção da minha fragilidade.

 

Marcos Augusto: A maneira de você se defender…

Marisa: De me preservar... Nunca tive aquele momento de me drogar e beber muito. Sempre vivi as coisas de uma maneira bem suave. Com o tempo, os medos aumentam: o medo de ficar doente, de se machucar, de morrer... medos que acho que todo mundo tem. Acho que nem é medo de morrer em si, é medo do processo.

 

Marcos Augusto: O Gil tem uma música linda, não sei se você conhece. O José Miguel Wisnik chamou atenção para ela num curso que ele faz sobre a canção. A música se chama “Não tenho medo da morte” e ela fala: “Eu não tenho medo da morte, eu tenho medo de morrer”, que são duas coisas diferentes.

Marisa: É isso.

 

Marcos Augusto: Mas essa ideia de finitude, enfim, também é um aspecto da maturidade. Na juventude, a gente não tem muita.

Marisa: A gente deixa para pensar isso lá na frente. Você não sente os anos se passarem da mesma forma quando você não tem filho. Você vê aquela criança de oito anos e o tempo está na sua cara... A maternidade, para mim, pelo menos, divide claramente a minha vida entre o antes e o depois.

 

Marcos Augusto: E você vai encarar um período grande de turnê agora ou você está pensando que vai ser um disco diferente?

Marisa: Eu quero primeiro lançar o disco e depois parar para pensar nisso.

 

 

Marcos Augusto: Quer dizer, você quer adequar o ritmo à sua fase atual. Que bom pra você que pode fazer isso.

Marisa: Que bom. Que bom que eu comecei cedo, que eu ralei para caramba até os 35 anos e me adiantei. Talvez isso responda os cinco anos entre um disco e outro, talvez responda um pouco sobre as minhas prioridades. Minha carreira faz parte da minha vida, mas não é a minha vida. Meu objetivo de vida é ser feliz e a carreira faz parte disso.

 

Marcos Augusto: O que mais?

Marisa: Quando você falou da imprensa, eu não sei como é que vai ser, mas eu pretendo atender. Na última vez que a gente se encontrou, conversamos sobre essa relação, sobre a imprensa de cultura e sobre como era o lançamento até, sei lá, cinco, oito anos atrás. Você tem que atender todo mundo em condições iguais, mas é muito difícil. A imprensa fica muito limitada em termos de tempo para ouvir e apreciar o trabalho, para se preparar para uma entrevista. O cara basicamente recebe o disco à noite e, na manhã seguinte, tem que estar às nove na redação para entregar a crítica até a hora do almoço, senão o outro jornal fura.

 

Marcos Augusto: O cara é treinado para isso. Eu acho a urgência da crítica, a urgência de você ter uma opinião sobre um trabalho, uma coisa complicada.  Eu demoro a formar uma opinião. Às vezes eu ouço um disco pela primeira vez e penso: “isso aqui é chato”, mas depois de ouvir mais vezes, mudo de opinião.

Marisa: É muito difícil para o crítico ter que escrever uma coisa tão rápida e assinar embaixo daquilo.

 

Marcos Augusto: Exato. Assim, você vai gerando um processo industrial, digamos, que deveria ser revisto por todos. Aí, fica todo mundo ansioso, angustiado. São opiniões dadas às pressas, que não se sustentam, e depois ninguém quer dar o braço a torcer. Ela é um produto que presta serviço, mas ao mesmo tempo é um produto que disputa mercado.

Marisa: E nessa hora todo mundo sai perdendo: o crítico, o jornal, o leitor e o artista.

 

Marcos Augusto: Mas até que ponto - pensando junto um pouco - esse processo de amplificação, de pulverização e de desconcentração da mídia, de certa forma relativiza o papel da indústria fonográfica? Você começou naquele modelão e eu também. O artista era contratado pela gravadora poderosa e lançavam o disco dele. O que a Folha, Veja, Estadão e O Globo falavam era um negócio crucial. A impressão que tenho é que hoje isso não é tão importante, nem de um lado, nem de outro...

Marisa: Até porque não se vende mais disco. Ele está acessível para quem quiser ouvir, sem precisar nem comprar.  

 

 

Marcos Augusto: Mas o modo como a mídia e o artista operam é como se ainda fosse dentro daquele modelo antigo.

Marisa: No último lançamento que eu fiz, registramos todas as entrevistas e editamos num DVD. Tinha uma cena de jornalistas perguntando a mesma coisa e eu respondendo a mesma coisa. Então, não é que eu estivesse criticando a imprensa, eu estava desnudando a relação do meu lado também. Agora a internet me possibilita dar iguais condições para todo mundo, então vou tentar fazer uma nova experiência. Espero que seja bom para todo mundo: para a imprensa, para mim e para o público. Passado esse primeiro momento, acho que a pressa do furo se esvazia. Aí eu posso, aos poucos, voltar a dar entrevistas, sem essa agonia toda. Não sei como que vai ser a reação, mas eu acho que o Chico Buarque fez uma experiência que funcionou. Acho que foi muito positivo. Não sei como vai ser comigo, mas espero que dê certo.

 

Marcos Augusto: Os artistas têm feito isso. A maneira como as pessoas vão tomando contato com o disco e com tudo já é outra. O jornal, teoricamente, tem uma função ali de orientar, de hierarquizar de alguma maneira, de informar mesmo. Agora, a relação da imprensa cultural com os produtores culturais e os artistas mudou. Os cadernos de cultura se transformaram. Eles são também produtos culturais, têm seu estilo. Houve o processo de transformação do jornalismo no estrelismo também. São atitudes quase caricatas, às vezes, por parte da imprensa com o intuito de obter efeitos de repercussão de comentário. Às vezes, um crítico destrói uma pessoa com o claro objetivo de se autopromover.

Marisa: Tipo Pedro de Lara (risos), mas acho que é perigoso para o crítico que faz isso. Não é assim que se constrói uma carreira com credibilidade, o buraco é bem mais embaixo.

 

Marcos Augusto: Algumas pessoas da imprensa falam que você tem essa coisa de ser a “cantorazona”, a marqueteira, de ter uma empresa que se preocupa com o seu êxito o tempo todo...

Marisa: Praticamente a Lady Gaga (risos).

 

Marcos Augusto : Antes da Lady Gaga (risos). É comum falar que a Marisa é marqueteira...

Marisa: Sempre falaram isso. Antes mesmo de eu ter o meu primeiro disco, já diziam que era uma estratégia de marketing da minha gravadora. E eu não tinha nem gravadora! É uma leitura equivocada e simplista do sucesso.

 

Marcos Augusto: Essa crítica entre aspas tem, como suposto, uma pessoa que está se preocupando com o seu trabalho de uma maneira obsessiva. Se não obsessiva, apropriada...

Marisa: Acho que apropriada. Nada de obsessão porque não é uma coisa que faz parte da minha vida...

 

 

Marcos Augusto: De uma maneira cuidadosa, eu quis dizer, caprichosa...

Marisa: Cuidadosa. Acho que uma característica minha é ser cuidadosa.

 

Marcos Augusto: Uma capacidade de ter uma visão do seu próprio trabalho...

Marisa: E ser criteriosa, né? Normal, não acho nada demais, acho que você faz isso também no seu trabalho.

 

Marcos Augusto: Pior do que você.

Marisa: Ah, marqueteiro! (risos). Eu acho que tudo bem, sabe? Se ser marqueteira é a minha crítica, acho que é praticamente um elogio. Também não vou dar conta de explicar e desfazer todos os mal-entendidos do mundo. Não há tempo, não dá. Eu procuro dar o meu melhor, estar feliz com o que eu estou fazendo. Quem gostar, ótimo. Quem não gostar, a amizade continua a mesma e vamos nessa. Depois, vem outro. Já levei muita paulada. Óbvio que eu não gosto, principalmente quando o motivo não tem a ver com a qualidade do trabalho em si. Mas faz parte, né?

 

Marcos Augusto: Faz, e, por outro lado, você já levou muitos elogios...

Marisa: E levo. Saio na rua e recebo muitos.

 

 

Marcos Augusto: Porque você é uma artista bem-sucedida, as pessoas gostam de você. Talvez por isso as pessoas achem que dar paulada em você não seja tão cruel, porque, afinal de contas, “ela já está tão bem ali... isso é para ela não ficar se achando demais.” É natural, também, na medida em que um artista chegue a um ponto de sucesso e vai permanecendo, que haja uma expectativa de renovação. Acho que até inconscientemente a mídia vive muito disso, né? A novidade é uma coisa crucial para a imprensa...

Marisa: Para a imprensa, a novidade é um bem que perde totalmente o seu valor à medida que deixa de ser novidade.  

 

Marcos Augusto: Exatamente. Falo desses mecanismos porque são reais. Isso existe não como uma coisa intencional que as pessoas queiram destruir, você ou quem seja, e tem uma safra de novas cantoras surgindo...

Marisa: Nossa, eu já vivi umas três safras dessas (risos).