Conversas com Marisa

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Conversa com o fã Jéferson Güntzel

Jéferson: Marisa, acho que é impossível não pensar numa turnê quando se  lança um cd. Tu já pensaste na turnê que vai vir pela frente, como é que vai ser? Vai ser parecida com a outra?

Marisa: É, já estou com algumas ideias para o show novo, de como vou transpor a sonoridade desse disco para o palco e também no que eu fiz em outros shows. Mas eu estou muito mergulhada no lançamento do disco nesse momento, então estou deixando pra pensar em show um pouco mais para frente. A gente ainda não tem nada marcado.

 

Jéferson: E agora, às vésperas do lançamento do cd, te preocupa a opinião das pessoas, a crítica delas, ou ficas mais preocupada com a vendagem do cd?

Marisa: Eu fico curiosa em saber se as músicas vão se comunicar de uma maneira legal com as pessoas, se vão chegar bem até elas... As músicas nascem de um âmbito muito pessoal, às vezes com mais um ou dois parceiros. Aquilo vai envolvendo mais gente à medida que você vai gravando, vai produzindo e vai passando por todas as fases de produção até, finalmente, chegar ao público. O primeiro single já saiu há um mês e eu já consigo ter esse feedback através da internet, vendo pessoas que mandam vídeos delas tocando a música. Ela está ganhando uma vida própria que vai além do que eu posso fazer por ela. E, claro, por mais que eu faça o meu melhor, nunca vou conseguir satisfazer a todos e ter uma noção conclusiva do que o público espera de mim. Isso só reforça a necessidade de saber o que eu quero, de estar inteira, com as ideias do disco, as letras... Assim, talvez isso possa fazer parte da vida das pessoas, como tantas músicas legais de outros artistas já fizeram parte da minha.

 

Jéferson: A Vanuza, uma de tuas fãs, falou que as redes sociais estão se tornando cada vez mais um meio de interação, de divulgação, de vários trabalhos e empresas etc. Então, hoje se tornaram quase fundamentais. Por que tu demoraste tanto para aderir a esse tipo de canal? Qual é a tua expectativa com esse novo cd?

Marisa: Bom, eu queria agradecer à Vanuza, pela dedicação e por ela ter mandado essa pergunta. Eu sempre tive o meu site, que foi evoluindo muito nos últimos dez anos. Eu, pessoalmente, nunca tive Facebook, Orkut ou Twitter. Eu ainda uso os velhos email e telefone, não sentia falta de mais maneiras de me comunicar no âmbito pessoal. Hoje, eu entro no Facebook, vejo os comentários das pessoas, dou uns "likes", e acompanho um pouco algumas coisas no Twitter. É interessante a velocidade, as ondas de resposta e como o público se manifesta. Tudo isso é fascinante, mas, ao mesmo tempo, ainda existem pessoas que não frequentam redes sociais, o mundo que não é virtual, um mundo de pessoas que ainda gostam de olhar no olho, que gostam de se encontrar e conversar.

 

Jéferson: Como é que funciona para selecionar as músicas do disco? É uma escolha totalmente tua ou tu pedes opinião dos amigos? Tem alguma influência da gravadora? Esta pergunta foi da Manoela Pereira.

Marisa: Manoela, obrigado pela sua pergunta. É uma escolha minha porque sou eu que vou me relacionar com essa música durante a vida inteira. Sou eu que vou ter que cantá-la, falar sobre ela. São músicas e assuntos de que eu gosto e vou cantando para os amigos mais próximos aqui em casa. A

gravadora não participa desse processo. Claro que existe um grupo de pessoas com quem eu tenho vínculos afetivos, que participam indiretamente, servindo de referência para mim.

 

Jéferson: A Tatiane de Vasconcellos queria saber se ainda está de pé esse desejo, que tu revelaste há algum tempo, de cantar com uma orquestra.

Marisa: Oi, Tatiane, obrigado pela pergunta. Cantar com uma orquestra é um sonho. Na verdade, existe um projeto para uma série de shows de entrada franca, ao ar livre, com orquestra sinfônica, que passaria por algumas cidades do Brasil. É independente da próxima turnê. Infelizmente, um projeto como esse, gratuito, e para grandes públicos, é completamente inviável sem a parceria público-privada. Ele foi aprovado pela Lei Rouanet, mas a gente ainda não conseguiu captar. Quem sabe um dia?

 

Jéferson: Nesse CD tem alguém cantando contigo em alguma faixa?

Marisa: Tem uma faixa minha e do Rodrigo Amarante chamada "O Que Se Quer", onde ele canta comigo. Fizemos essa música durante a gravação e achei que ela tinha tudo a ver com o disco.

 

Jéferson: Os fãs também querem saber se tu usaste o teu lado de intérprete, se cantou músicas de outras pessoas. No disco tu cantas uma música do Jorge Ben Jor. Como foi a escolha dela?

Marisa: Essa música se chama “Descalço No Parque”, “Ben É Samba Bom”, de 1964. A música tem um arranjo lindo no original e eu já cantava no violão, em casa e durante as turnês. É uma música, em três por quatro, que já esta na minha vida há um bom tempo, já cantei em alguns shows por aí. Chamei o Miguel Atwood-Ferguson e mostrei para ele a minha base. Ele fez um arranjo lindo de cordas, totalmente diferente e surpreendente para quem conhece a versão original do Jorge Ben. Miguel é um arranjador de 27 anos que toca violino, violoncelo e viola. Ele escreve para outros instrumentos também, mas o que ele escreve para cordas, ele mesmo grava. Ele é jovem, seríssimo e gostei muito de trabalhar com ele.

 

Jéferson: Uma das músicas de que mais gostei foi "O Que Você Quer Saber De Verdade", a primeira música do disco. Como foi criar essa música?

Marisa: Essa música eu fiz algum tempo atrás junto com o Arnaldo e o Brown. O Arnaldo acabou gravando num disco dele, o “Qualquer”, de 2009, mas eu sempre pensei em gravar. Essa música e "Verdade, uma Ilusão" que tinha sido gravada pelo Brown, ambas nossas, são bem emblemáticas dentro do conceito do disco.

 

Jéferson:  E essa “Lencinho Querido”? Tu já cantaste num show antes, não?

Marisa: Eu cantei na inauguração de um teatro lá em São Paulo, em que fui convidada para fazer uma participação. Era o “Cafe de los Maestros”, com participação minha e do Gustavo Santaolalla. O “Cafe de los Maestros” é um grupo argentino muito tradicional do tango, uma velha guarda do tango. Então eu comecei a pesquisar o que tivesse dentro o universo brasileiro que se adequasse a essa linguagem

deles. E aí, lembrei dos tangos que tinham sido gravados no Brasil, nos anos 40 e 50. Nessa época a música argentina e a latina eram muito mais próximas da brasileira e havia muitas versões para o português. Algumas tinham sido gravadas por Francisco Alves, Dalva de Oliveira, Orlando Silva... Descobri dois tangos que a Dalva tinha gravado e que tinham sido sucessos na voz dela: um era "Fumando Espero” e o outro "Lencinho Querido".  Então fiz uma gravação aqui em casa, só eu e o Dadi. Construímos uma base com violões e um pouco de percussão para ver o tom e o andamento e mandamos como referência. O arranjador Gustavo Mozzi (do Café de los Maestros) escreveu um arranjo e eles ensaiaram em cima dessa base. Me mandaram de volta o arranjo do ensaio deles e era lindo. Quando eu estive com o Gustavo Santolalla, em Los Angeles, eu falei pra ele que eu queria que essa música fizesse parte do novo disco. Aí, a gente voltou lá, falou com o Gustavo Mozzi, e ele tinha o multitrack do ensaio. Ele nos enviou a sessão, nós mixamos e essa é a versão que está no disco.

 

Jéferson: "Bem Aqui" é uma música linda. Eu adorei. Como foi essa escolha?

Marisa: "Bem Aqui" é uma música do Dadi e do Arnaldo que o Dadi gravou num disco solo dele, com o mesmo nome, que só saiu no Japão. Eu gostava de tocá-la em casa. Muito reflexiva, ela fala de estar bem onde se está, de aceitação. É linda a música.

 

Jéferson: Também achei ótima “Aquela Velha Canção”, que é tua com o Brown. Fala um pouco mais da faixa porque eu acho muito legal tu dizeres “Ah, vou te mandar para o inferno”, coisa que a gente nunca ouviu tu falares numa música. Até me surpreendi...

Marisa: Essa música é minha. Eu e Brown fizemos a letra juntos. Geralmente, quando eu faço uma música, já tem algumas palavras que vêm junto com a melodia. Ela fala de alguém que se rende ao sentimento amoroso: “confesso que fiquei zangada, fiquei chateada, mas agora passou, esqueci, não vou te mandar para o inferno, porque não quero e porque fica muito longe daqui”. Ela tem uma levada meio folk brasileira, com violões de aço. É uma das que eu gravei com o trio básico do Nação Zumbi, em São Paulo. Depois ela recebeu um arranjo de cordas feito pelo Greg Cohen, em Nova York. O Greg é o mesmo cara que arranjou "Maria De Verdade", “Magamalabares", "Alta Noite"...

 

Jéferson: “O Que Você Quer Saber Da Verdade” me lembrou bastante de “Vilarejo”, sabia?

Marisa: Ela também é em três por quatro, como várias outras: "Beija Eu", "Velha Infância”, "Chuva No Brejo"... Músicas em três por quatro dão uma sensação de continuidade. O discurso em si é bem diferente de “Vilarejo”, mas musicalmente elas são da mesma família.

 

Jéferson: "Era Óbvio", fala um pouco mais dessa faixa...

Marisa: Eu e Arnaldo fizemos “Era Óbvio” numa viagem de férias em que compusemos muito. Duas das que fizemos nessa viagem estão no disco. A outra é “Seja Feliz”. Mas “Era Óbvio” fala sobre um relacionamento que fica em aberto, que continua existindo, mas só como possibilidade. E “Seja Feliz” é só alegria, é sobre desfrutar a vida: “tão longa estrada, tão curta a vida, curta a vida”.

 

 

Jéferson: Outra que eu achei ótima é “Amar Alguém”, que fala sobre amar duas pessoas...

Marisa: "Amar alguém só pode fazer bem"... Ela fala sobre o fato de você não escolher quem você vai amar, então, se o amor não tem explicação, se o amor não pode ser contido, por que você vai sofrer por isso? "Amar Alguém" fala um pouco do amor não tão idealizado, mas como a gente o vive na prática, porque ele é bem inesperado, ele é bem inexplicável e bem surpreendente. É em cima de um poema do Arnaldo, do livro “N.D.A.”, que o Dadi começou a musicar e nós terminamos juntos.

 

Jéferson: E “Depois”? Como é que foi? Tu fizeste com o Carlinhos e com o Arnaldo, né?

Marisa: É, essa também. A música e melodia são minhas e na letra a gente fala sobre o fim de um romance de uma forma progressista, evoluída, desencanada, desprendida... A pessoa quer que outro seja feliz porque não há nada mais amoroso do que querer isso. Termina bem, sabe? Com sentimento, mas sem ressentimento...

 

Jéferson: “Hoje Eu Não Saio Não” tem uma pegada mais nordestina...

Marisa: Essa é do Arnaldo, do Marcelo Jeneci, do Chico Salem e do Betão...

 

Jéferson: Eles não gravaram isso?

Marisa: Não gravaram. Acho que devem ter feito num momento festivo. Devem ter se divertido muito e dado muita gargalhada fazendo. É ótima, porque é uma música animadíssima. Ela fala sobre alguém que está em casa amarradão e não quer sair. Ele quer ficar na casa dele, mas não está deprê, triste, desanimado. “Não troco meu sofá por nada, neném”. Ele pode até estar acompanhado, mas não tem nada melhor para ele do que estar em casa naquele momento.

 

Jéferson: No disco anterior tu dedicaste “Rio” para o teu filho. Tu fizeste alguma dessas músicas pensando em alguém ou tu crias um personagem, pra talvez imaginar a situação?

Marisa: Eu acho que é uma situação mais cinematográfica, mais assim de você imaginar uma situação. Isso é engraçado porque quando você faz uma música, as pessoas sempre querem conectar com alguma coisa que você está vivendo. É muito mais um acervo de situações que você tem vivido de experiência dentro de você que você consegue acessar. Eu não preciso estar vivendo a separação para falar sobre separação.