Conversas com Marisa

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Conversa com Hermano Vianna - Parte 1

Hermano: Isso que está acontecendo aqui, para mim, é uma novidade, porque sempre escuto o disco várias vezes antes de fazer uma entrevista. É a primeira vez que eu escuto alguma coisa na hora. Eu fui anotando algumas coisas que são exatamente fruto da primeira impressão, que eu acho que era a intenção de vocês…

Marisa: Na verdade, a intenção não era nem provocar esse desconforto de você ter que ouvir uma vez só e vir aqui falar. A intenção era ter um interlocutor agradável e poder ter uma conversa que flui, porque eu adoro conversar e gosto de conversa boa, sabe? A intenção não é exatamente uma entrevista e sim uma conversa informal sobre como você ouviu o disco e que assuntos ali lhe causam curiosidade.

 

Hermano: Mas eu estou achando esse desconforto bom, porque é uma experiência nova para mim. Sou muito mais de ficar pensando numa coisa e eu só falo sobre aquilo depois de pensar bastante. Eu tinha escutado algumas dessas canções. Você falou que eram demos e eu achei que já eram gravações. Como foi o processo desde lá até aqui?

Marisa: A construção foi em camadas. Então, digamos que primeiro tinham as composições, uma série de composições, todas só na memória. E aí eu e o Dadi, que mora do outro lado da rua, começamos a nos encontrar sem horário marcado, sem compromisso, mas com muita disponibilidade de ambas as partes. Tem esse conforto, porque ele sabe mexer no estúdio e a gente tem uma intimidade grande. “Ah, Dadi, passa aqui?” Isso quase todos os dias, na verdade: "Vamos registrando aquelas músicas, para pelo menos não esquecer?". Então, enquanto você faz isso, naturalmente você já vai encontrando um andamento confortável, um tom bom para cantar, uma forma que fique simpática, legal. A gente foi fazendo isso com todas as músicas, sem muito compromisso, durante uns bons seis meses. E, mais ou menos nesse período em que você veio me visitar, as bases já estavam gravadas. Depois, eu comecei a fazer mais para valer. Agora, várias coisas que eu fiz, inclusive algumas bases, foram em cima dessas referências, desses andamentos, desses tons…

 

Hermano: Aquilo servia como uma coisa para os músicos escutarem ou outros instrumentos eram colocados em cima daquilo?

Marisa: Os dois casos aconteceram. Algumas coisas foram gravadas em cima e outras, aproveitadas. Em outros casos, só serviu de referência e foi gravado de novo. Eu comecei gravando as bases lá em São Paulo com o power trio do Nação Zumbi - Pupillo, Dengue e Lúcio Maia - com as coisas já começadas. Eu segui trabalhando em cima de muitas das próprias bases que a gente já tinha, que eram bases de percussões, violões, muitas das quais eu mesma toquei com o Dadi. Depois, passei um mês em Nova Iorque, em janeiro, levei o HD comigo, e lá eu encontrei com alguns músicos, alguns arranjadores. Gravei algumas coisas lá com o Bernie Warrel, tecladista do Funkadelic, que já tinha gravado comigo em alguns discos que eu fiz com o Arto. Procurei um cara que tocasse um piano com uma linguagem pop e encontrei o Thomas Bartlett, mais conhecido como “Doveman”, que tocou com Antony and the Johnsons, David Byrne e Yoko Ono, entre outros. Ele me foi indicado pelo Patrick Dillett, que mixou os discos “Mais”, “Barulhinho Bom” e “Memórias, Crônicas e Declarações de Amor”.

 

 

Hermano: Eu vi o Patrick no vídeo, naquele primeiro que entrou na internet…

Marisa:  Foi um parceiro que eu resgatei, um engenheiro maravilhoso. No “Mais”, ele era assistente no estúdio e acabou assumindo o disco. Ele trabalhou muito com o Arto também e já veio ao Brasil várias vezes. Ele me ajudou a encontrar essas pessoas com quem eu fiz essas gravações em Nova York. Depois, eu fui a Los Angeles e encontrei com o Mario (Caldato), com quem eu também tinha pensado em fazer algumas coisas. Quando eu trabalhei com o Mario, aqui no Brasil, foi dentro de um universo de músicos com quem eu já trabalhava, mas eu queria encontrar um pouco a turma dele. Então, ele me apresentou o Money Mark, tecladista que tocou com o Beastie Boys, e também um arranjador americano, o Miguel Atwood-Ferguson, um cara super jovem que toca viola, violoncelo e violino, a quem encomendei alguns arranjos. Acabei encontrando o Rodrigo Amarante lá, quando a gente gravou uma música pra o Red Hot + Rio 2. Também encontrei o Gustavo Santaolalla, que é um cara com quem eu já tinha feito alguns trabalhos, por quem eu tenho a maior admiração. É um produtor argentino que já trabalhou com muitas pessoas, fez muitas trilhas para o cinema. Ele produziu o Cafe de los Maestros, o Bajofondo e a Julieta Venegas, por exemplo. Eu passei uns dois dias com o Gustavo, que é multiinstrumentista e tem um estúdio com um acervo de instrumentos e sons que colocou à nossa disposição. Ele foi se inspirando e pegava um ronroco, um violão, uma cítara, um harmônio, sei lá, um tubo.

Na volta para Nova York eu encontrei com outro arranjador que eu adoro, o Greg Cohen, que já tinha trabalhado comigo e com o Arto Lindsay. Ele tinha feito “Maria De Verdade”, “Magamalabares”, “Alta Noite”, várias coisas que eu gosto. Também encomendei uns arranjos para ele. Então, deixei as coisas apontadas, vim embora e continuei trabalhando aqui no Brasil, fazendo vozes e mais alguns overdubs. Fiquei coordenando isso tudo e algumas coisas que foram acontecendo mais remotamente, tipo os arranjos do Miguel. Ele foi gravando em LA e me mandando. E o Greg também estava escrevendo, em Berlim.

 

Hermano: E você viajando com um HD embaixo do braço?

Marisa:  Eu viajava com o HD debaixo do braço. Isso foi uma coisa muito marcante. Foi um disco que eu fiz com gente trabalhando em Los Angeles, em Berlim, em Nova York...  Me comunicava pelo Skype e por email. Manda música, volta música. Para mim, foi uma novidade porque fiz os últimos dois discos só no Rio e essa é uma tecnologia relativamente recente que te permite isso. Esse foi um disco muito inserido dentro do meu cotidiano, da minha vida. Além de boa parte ter sido feito em um estúdio caseiro, eu tive esse tempo natural, sem prazo para acabar.

 

Hermano:  E quem assina a produção?

Marisa:   A produção é minha e a coprodução é do Dadi, que foi meu companheiro nesse período todo, meu parceiro desde o começo.

 

 

 

 

 

Hermano: É porque tem toda essa camada, pessoas que foram se juntando no caminho, na estrada mesmo…

Marisa:  Foi feito entre amigos. Muitas pessoas acabavam participando quando vinham me visitar. O Domenico, por exemplo, veio aqui um dia:  "Ah, deixa eu tocar isso aqui". Ele foi lá, tocou e a gravação ficou. Eu não queria escolher a música, tipo “você tem que tocar nessa música, a ideia é essa”. Queria que as pessoas escolhessem a música e o instrumento que tivessem vontade de tocar. A ideia era deixar aquilo fluir na pessoa com naturalidade. Essa maneira é muito mais musical de se trabalhar.

 

Hermano: Você não fica em função da tecnologia, mas a tecnologia só facilita uma coisa que é…

Marisa:  A tecnologia, em si, é neutra. Não ajuda nem atrapalha. Ela depende de como você usa, como quase tudo na vida.

 

Hermano: E é uma união muito interessante porque tem o trio do Nação Zumbi, o Mario Caldato, o Gustavo Santaolalla. O Gustavo é um dos mais importantes produtores da história da música pop no mundo, o disco que ele fez com o Café Tacuba...

Marisa:  Sem falar no trabalho dele para cinema.

 

Hermano:  É legal que a tecnologia possibilite esse contato íntimo com pessoas que estão distantes e que de outra maneira não poderiam participar, devido a suas agendas… Mas será que as pessoas ainda escutam disco?

Marisa: É, isso é uma questão.

 

Hermano: Eu fiquei pensando nisso: as pessoas colocam no shuffle e você não tem mais nenhum controle sobre o que vai vir antes e o que vai vir depois...

Marisa: Eu não sei, é verdade, as pessoas talvez não escutem mais tanto o álbum, mas mesmo assim eu ainda estou lançando um álbum, pelo menos dessa vez. Pode ser que no futuro eu lance de duas em duas [músicas], de três em três, de uma em uma. Eu não tenho nada contra isso, eu acho bem legal, mas eu acho que enquanto ainda existir um produto físico, ele serve como referência de formato. Eu acho que realmente o produto físico vai se tornar um consumo de nicho como é hoje em dia o LP. É inevitável e eu acho muito legal, porque eu acho que é muita matéria, é muito plástico, é muito papel. Eu acho que o mundo no futuro não precisa disso, não cabe isso. Eu acho muito legal para um consumo de massa que isso tudo seja virtual mesmo, que possa circular, que possam caber grandes arquivos em pequenos espaços. Eu acho que isso é muito adequado às transformações que o planeta precisa viver. Mas eu não sou uma artista que está começando agora, estou vivendo essa transição. O meu primeiro trabalho, de 89, foi lançado só em LP e fita cassete. Eu venho desse mundo…

 

 

 

Hermano: Que tinha ainda o lado A e o lado B, as pessoas ficavam pensando que música iria para o lado A e que músicas iriam para o lado B e o CD já mudou isso. E hoje a tecnologia que possibilitou a existência desse disco tal como ele é, da forma como você descreveu o processo de produção, também possibilitou muitas formas de escutar...

Marisa: Sim, e eu tenho certeza de que vai provocar uma revisão no formato de negócio, no ritmo de lançamento. Eu acho que para o artista, apesar de se falar muito em pirataria, de quanto se perde, acho que é um grande ganho você cortar muitos intermediários na relação com o seu público e poder chegar diretamente, tanto com a sua fala quanto com a sua música e o seu pensamento. É o que há de melhor e é o que sempre me encantou no show. A relação que construí com o meu público foi através do meu contato direto com eles. E a possibilidade fazer isso de tantas maneiras é um ganho enorme.

 

Hermano: Mas eu acho que antes dessa possibilidade mesmo você já estava experimentando uma maneira nova de lidar, de cortar intermediários na sua música. Você foi a primeira artista brasileira a ter controle nos fonogramas, por exemplo...

Marisa: É, eu sempre procurei ser criativa para além da própria produção musical. Como vai ser o meu jeito enquanto artista nesse mundo em que tenho de lidar com diferentes forças: a indústria fonográfica, a imprensa, os parceiros, os músicos, comigo mesma... Sempre procurei botar minha criatividade a serviço disso e procurar um jeito próprio de lidar com essas coisas. Sempre busquei esse caminho de ter a minha própria editora, o meu selo, de ter mais independência e manter a liberdade. Não tem nenhuma maneira certa, nenhuma errada, mas eu estou sempre tentando encontrar a minha.

 

Hermano: Hoje é sempre um mistério quando você está lançando um disco. A gente viveu outra história da industria fonográfica. E eu vejo aquela pessoa que se esforçou tanto para lançar um disco, fazer aquele produto e se dedicou tanto para aquilo... E aquilo vai para onde, né? Vai ser vendido onde? Não tem nem loja mais...

Marisa: De fato, por mais que todos esses arquivos circulem, a produção precisa ser mantida, ela não pode se tornar uma coisa inviável. É claro que o conteúdo tem um valor enorme ainda, as pessoas são ávidas por ler bons textos, escutar boa música, entrar em contato com o conhecimento. Isso aí é importante para as pessoas e para nós. Então, ao mesmo tempo, os pesquisadores, os escritores, os cientistas e os artistas precisam de subsídios para produzir e para sobreviver do que produzem. Hoje em dia, para um artista que se apresenta, faz shows ao vivo, a coisa ainda parece salva, mas, para um compositor que vive exclusivamente de direitos autorais, é praticamente inviável. O cara tem que ser taxista e compositor, tem que ter outra profissão também. Eu acho que todo mundo que lida com informação de uma forma geral está precisando repensar os seus modelos. E a música faz parte disso.

 

Hermano:  Eu li uma entrevista com a Björk, sobre o lançamento do próximo disco dela e tem uma coisa que eu adorei. Ela acha que as coisas estão realmente melhorando, que está tudo caminhando e que a crise traz muitas possibilidades boas para quem souber usá-la. Ela fala que é a melhor época para trabalhar com gravadora, porque ninguém mais ganha dinheiro com gravadora, então, quem está na gravadora é porque gosta de música, não está lá pelo dinheiro.

Marisa:  Então sobra para os idealistas, para quem realmente gosta.

 

Hermano:  Acho que esse disco está muito bem equacionado. A sofisticação toda está em função da simplicidade de uma...

Marisa: Comunicação…

 

Hermano: Comunicação! E eu me lembro de você cantando uma vez aqui na sua casa. Acho que você tinha acabado de compor “Amor I love you” e ainda estava surpresa com aquilo. Eu sou capaz de cantar uma coisa tão simples e tão universal, mas eu acho que nesse disco é muito explícito, muito impressionante a qualidade pop.

Marisa:  Na verdade, eu acho que essa é uma característica das canções, de se comunicar com as pessoas.

 

Hermano: Mas eu acho que isso prova que para ser direto, para ser simples, você não deixa de ser sofisticado. Essa é uma característica da poesia do Arnaldo.

Marisa: Do Brown também. Ele pega uma palavra e parece que ele vai dizer uma coisa muito simples, mas ele transforma aquilo em outro significado através de uns jogos de palavras. O Arnaldo também. Ele é rigoroso, dá segurança para a gente quando a gente está compondo, de que as coisas vão estar no lugar, porque ele sabe organizar. Ele tem o costume de escrever, tem uma intimidade com a literatura maior do que eu e o Brown. A gente é mais da rua, mais da vida mesmo. Ele é dos livros.

 

Hermano:  E tem uma coisa que é uma evolução do seu trabalho, mas que ilumina retroativamente as outras coisas, porque acho que antes poderia haver uma dúvida, se tinha também uma ironia de usar determinadas formas populares de compor, mas agora eu acho que tem um distanciamento da ironia, você gosta mesmo…

Marisa: Lógico, se eu estou aqui é porque ouvi Roberto Carlos e Tim Maia a vida inteira. Essas coisas são muito naturais para mim. É a formação mesmo, é o que está impresso na forma de sentir a música, de viver a música.

 

Hermano: O disco vai se chamar "O Que Você Quer Saber De Verdade". E não é uma pergunta, é uma afirmação.

Marisa: Não é uma pergunta, é um objeto, um objetivo, é uma coisa que você quer saber de verdade.

 

Hermano: O disco é muito interessante porque por trás da aparente simplicidade de algumas canções, a mensagem que está sendo passada é muito complexa, muito sofisticada… e não coloca as coisas de um lado ou de outro, preto e branco... as coisas são misturadas e…

Marisa: E deixa várias questões em aberto. Não é tudo conclusivo, mas eu acho que provoca algumas reflexões ou, pelo menos, quer provocar. Essa questão da relevância dos valores para cada um… o disco fala sobre escolha, sobre desejo, sobre autoconhecimento e liberdade.

Hermano: Há muitas canções para o bem viver, várias canções em que você está falando consigo mesma… e essa de certa forma é a missão da filosofia desde sempre na Grécia: ensinar a viver bem. Acho que foi se sofisticando muito que a origem dessa procura da verdade foi desaparecendo do palavreado difícil dos textos. Ao mesmo tempo, tem outro lado. O pop é autoajuda, o pop nos ensina.

Marisa: A gente entra em contato com muita sabedoria através das músicas.

 

Hermano: E ensinando que as coisas são complexas mesmo. “Vai sem direção”, “Vai ser livre”, “A tristeza não resiste” ou, então, “A vida é curta, curta a vida”. Todas essas coisas parecem muito simples. 

Marisa: Tão largo o céu, tão curta a vida ...

 

Hermano: Se você parar para pensar nisso, é muito complexo…

Marisa:  E é mesmo.