Conversas com Marisa

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Conversa com Francisco Bosco

Francisco: Marisa, queria que a gente começasse conversando sobre a canção abre-alas do disco, "Ainda Bem". Assisti ao clipe em que você dança com o Anderson Silva e queria que você falasse um pouquinho sobre o que é a dança para você, porque a dança aparece muito no disco, em algumas letras e, de cara, nesse clipe.

Marisa: Eu acho que a dança é uma linguagem corporal musical. Eu gosto muito de dançar e frequento alguns bailes da cidade aqui no Rio. Me familiarizei com essa linguagem, que é de improviso, de entrega, porque você, às vezes, dança com pessoas que nem conhece. É uma resposta física à música. Tem músicas a que o seu corpo responde intuitivamente com um movimento... isso é a dança. No caso da dança que está no clipe, como a música trata da celebração de um encontro (“ainda bem que eu encontrei você”), achei que um par dançando podia representar bem essa ideia. Quis convidar o Anderson porque já sabia que ele dançava. Já o tinha visto entrar como Michael Jackson antes de uma luta, dançar com a filha na festa de 15 anos e o identifiquei como provável bom parceiro. Como eu tinha que fazer o clipe, pensei em chamá-lo, mas não sabia se ele iria gostar da ideia se ele iria poder. Felizmente tudo fluiu, ele aceitou. Não tem uma coreografia, a gente não ensaiou. Aquilo é realmente uma conversa física, sendo a música a condutora.

 

Francisco: E ele se confirmou um bom dançarino?

Marisa: Ótimo dançarino. Acho que o que ele faz na luta tem um pouco a ver com isso, porque você tem que ler o corpo do outro. A luta também é um diálogo, assim como a dança. Ele tem essa noção muito clara, o domínio dessa linguagem, e o que eu gostei muito é que apesar de ele ser um atleta, um campeão de um esporte de luta, o clipe mostra toda a delicadeza dele. Você vê que ele é uma pessoa gentil, elegante, e isso é uma coisa que eu já tinha percebido através da voz dele. A primeira coisa que eu falei para ele quando o encontrei foi: “eu adoro a sua voz”. Porque como ele é muito grande, muito forte, tem esse contraponto com a voz. Mas eu acho que ela é a alma dele. É o que traduz o seu espírito, aquela doçura. Então é muito legal vê-lo tão leve, tão gentil, tão doce, num mundo tão feminino, tão livre de impacto.

 

Francisco: Marisa, a todo o momento me vinha à mente a frase famosa do Nietzsche: “Eu não confiaria em um Deus que não dança”.  E o seu disco tem momentos nietzschianos muito fortes: a questão da verdade, a questão da ilusão... verdade, ilusão, mentira.  Tem uma questão ética que atravessa o disco todo que é tentar ouvir mais claramente o seu desejo e arcar com as consequências dele, sejam quais forem essas consequências, por mais grave que elas sejam…

Marisa: É a questão do compromisso individual com a felicidade, de que só você vai ser feliz por você e ninguém mais. Então, essa é uma responsabilidade que cabe a cada um. Existe tudo com o que a gente tem que arcar, em consequência das escolhas, mas é muito importante que cada um consiga descobrir o que é bom para si. Obviamente, não existe uma verdade coletiva, mas existe verdade no íntimo... A verdade só existe no íntimo.

 

 

 

Francisco: Antes de te conhecer pessoalmente, eu tinha, além de uma admiração por você como artista, uma admiração pela sua postura em relação a uma questão muito forte na nossa cultura, que é a cultura das celebridades. Um certo culto à própria imagem que muitas vezes faz com que a pessoa perca de vista o seu desejo, porque tem que alimentar aquilo que se espera da imagem dela. No entanto, você sempre pareceu uma pessoa  com uma capacidade rara de fazer o que é preciso para cuidar da sua imagem, no sentido do seu trabalho atingir a maior quantidade possível de pessoas. Ao mesmo tempo, você tem uma vida quase que secreta, low profile. Nesse disco, é como se essa sua conduta tivesse chegado a uma radicalidade máxima, como se você não tivesse que prestar contas a nada que não fosse a nudez do seu desejo, o que você quer para a sua vida.

Marisa:  Eu acho que esse disco fala de muitos valores. Eu não confundo a minha pessoa com a minha arte. Hoje em dia existe uma confusão muito grande entre arte e artista, como se essa linha tênue que divide isso já não existisse mais. Mas para mim ela ainda existe. É claro que ela se confunde, é claro que o meu trabalho é muito pessoal, claro que muito da minha vida eu trago para o meu pensamento artístico, mas de alguma maneira eu consigo separá-las. Na verdade, eu me sinto muito confortável em servir à música e não tenho essa vaidade pessoal de querer aparecer mais do que ela. Claro que eu quero dar o meu melhor, que o meu trabalho esteja lindo e bem feito. A música está aí há milhões de anos. Ela vai continuar e eu estou só de passagem, então eu estou tentando, de alguma maneira, cumprir minha função dentro desse processo.

 

Francisco: Uma coisa que eu adoro em "Ainda Bem" é que ela é uma letra muito direta, muito simples e, no entanto, tem um momento crucial que é o verso "tudo se transformou".  Esse verso, da canção clássica de alguém que você ama, o Paulinho da Viola, está ali de modo curioso, porque na canção do Paulinho “tudo se transformou” é um amor que se tornou desencontro. Na sua, era um desencontro íntimo que de repente vira um encontro. 

Marisa: Desilusão que se iluminou...

 

Francisco: Então eu queria pegar esse gancho, sobre quais são os compositores brasileiros ou em âmbito mundial que você acha que estão mais presentes na conversa musical desse disco.

Marisa: Eu não sei se tem isso... Acho que tem coisas que eu cresci ouvindo, coisas que eu nem penso, mas que estão de alguma maneira funcionando e agindo ali, flutuando. E também não é tudo meu. Eu tenho um grupo, um coletivo de autores, de compositores, de parceiros, que trabalharam comigo.  De alguma maneira, são acervos que se cruzam, porque muitas das situações descritas ali no disco não são coisas que necessariamente os três parceiros estão vivendo no mesmo momento, mas, de alguma maneira, todo mundo sabe mais ou menos como é. Por exemplo, encontrar alguém e a sensação maravilhosa daquela descoberta. A maioria dos meus parceiros é da minha geração e a gente cresceu ouvindo música pop brasileira e música mais tradicional brasileira, desde Dorival Caymmi, Noel Rosa, passando por Tim Maia, Roberto Carlos... Também Los Hermanos e outros compositores contemporâneos, passando por todos os momentos do rock, como Titãs, Renato Russo, Cazuza... São experiências múltiplas e acho que não só a música influencia, mas o que se lê também. Pode ser sobre a história do Brasil, pode ser ficção, pode ser romance...

 

 

 

Francisco: O que você gosta de ler mais?

Marisa:  Eu gosto muito de literatura brasileira.

 

Francisco: Romance ou poesia?

Marisa: Mais romance. Leio poesia também, mas eu me apego mais ao romance. Adoro Machado, José de Alencar, João Ubaldo... são as coisas que eu leio e releio. Às vezes aparece um livro latino-americano e eu leio também, mas é muito legal você ler um texto que foi gerado originalmente em português. Eu gosto mais dessa sensação do que ler traduções. Lógico que eu leio traduções também, mas é tão bacana quando você encontra um texto que foi escrito originalmente por alguém que fala português. É diferente. Você sabe que aquele texto do João Ubaldo em "Viva o povo brasileiro" vai ser traduzido para o alemão, mas ele nunca vai ser lido como a gente pode ler aqui.

 

Francisco:  Esse é um livro especialmente formidável, né? Porque ele tem várias línguas portuguesas dentro do mesmo português, o português do século XVI...

Marisa:   Eu tenho muita admiração pelo João Ubaldo, ele é incrível. Acho que é o escritor brasileiro vivo que eu mais amo. Leio sempre a coluna dele no jornal. Enfim, leio muitos livros. Leio um pouco de tudo: Miguel Sousa Tavares, Isabel Allende, Mario Vargas Llosa, Gabriel García Marquez, Darcy Ribeiro...

 

Francisco: Tem uma parceria sua com o Amarante nesse disco, chamando mais para a jovem guarda, e tem um compositor que você está praticamente apresentando para o público maior, que é o André Carvalho ...

Marisa: Na verdade, a Maria Gadú gravou uma música do André que toca bastante na rádio. Ele é filho do Dadi. Quando eu comecei a tocar com o Dadi, o André tinha 12 anos. Eu conheço o André há muito tempo e ele está desenvolvendo uma linguagem como compositor muito interessante, muito própria. Acho que a coisa mais difícil para um compositor é encontrar um jeito particular de se expressar. Ele fez o primeiro disco dele recentemente e a música que eu gravei está nesse disco.  Eu fiquei com essa música na cabeça dias assim: “nada, nada, nada, tudo, tudo, tudo, tudo, nada e tudo, eu não sei mais”. É isso, né, verdade-ilusão... Essa relativização das coisas e essa busca de uma precisão do foco num mundo tão disperso... Eu fiquei encantada, aprendi a tocar em casa...  É sempre assim que elas vão parar nos discos.  E aí, ontem, eu vi que ele foi citado na Academia Brasileira de Letras, na posse do Merval [Pereira]. Outro acadêmico, o Marcos Vilaça, usou no discurso um trecho da música que a Maria Gadú gravou: “todos os caminhos trilham pra gente se ver, todas as trilhas caminham pra gente se achar”. Quer dizer, o garoto vai longe (risos).

 

Francisco:  Uma coisa que eu achei marcante também é essa canção "Verdade, uma ilusão" que é uma espécie de foxtrot de salão. Tem uma referência à dança também... é uma dança.

Marisa:  É uma dança também, uma conversa de duas pessoas que estão dançando. Ela tem essa linguagem...

 

Francisco: E tem este verso: "verdade, seu nome é mentira''.  Essa canção parece um pouco Nietzsche na (Gafieira) Estudantina... Queria que você falasse um pouquinho sobre o que você acha dessas ideias de verdade-ilusão. O que é verdade, o que é ilusão?

Marisa:  Verdade, segundo meu amigo Ernesto Neto, só existe quando não tem ninguém olhando, porque, se tem alguém olhando, já vira versão. Então a verdade só existe de uma forma individual mesmo. Existem várias versões, existem as verdades individuais, mas essa verdade absoluta, não. Até as leis da física são questionáveis. Há algum tempo o mundo era quadrado, já não é mais; a coisa mais veloz que existia era a luz, mas parece que já não é mais. Então, a verdade é algo que a gente está sempre buscando, mas que é sempre impossível de se alcançar. No entanto, ela existe no íntimo, ela existe dentro de cada um de nós. É como se a pessoa estivesse naquele enlevo amoroso todo, mas soubesse que tudo é uma invenção da cabeça. A pessoa quer viver aquilo, mesmo sabendo que isso pode ser tudo meio fantasioso e meio impalpável.

 

Francisco:  Então, a ilusão é a única verdade. Para usar uma palavra que você usou quando gente conversava e que eu acho uma das mais lindas da língua portuguesa, esse é um disco muito “desencanado”. Ele tem uma coisa de liberar a si, liberar o outro. Ele não é um disco cheio de labirintos, é todo claro, né?

Marisa: Ele fala de vários assuntos, mas sempre de uma forma que flui. Ele não é problemático, é bem desapegado. É leve, assim, resolvido, "Seja Feliz". “Bem Aqui", "Hoje Eu Não Saio, Não", "Ainda Bem", "Depois", "Amar Alguém”, "Aquela Velha Canção". Eu acho que tem um bem viver permeando todas essas músicas, ou pelo menos tem uma vontade, uma busca desse bem viver, de estar bem, de gostar. É melhor gostar do que não gostar; é melhor ser feliz do que ser triste; é melhor resolver do que viver problemas. Porque se você briga com a vida, você perde.

 

Francisco: A vida gosta de quem gosta dela...  Como é que você vê, dentro da sua trajetória, esse disco novo?

Marisa: Já fiz vários discos, já tive vários parceiros. Eu vejo que tenho mais controle dos meios de produção, tenho mais experiência e ainda tenho vontade de trabalhar. As ambições são diversas... Eu acho que eu fiz esse disco em um momento muito legal porque eu fiquei mais em casa, tive tempo, tive uma filha. Um momento muito tranquilo, muito gostoso, em que eu pude viver a música, viver a criação... E ler muito, viver o afeto, viver o amor e estar nutrida. Esse distanciamento que eu dou, quando eu fico um tempo sem viajar muito, é ótimo porque eu vejo minha vida. Sabe quando você está fora do furacão e você consegue olhar e ter uma visão mais clara? Então, foi um momento muito bom para mim e eu acho que ele passa uma preocupação em aproveitar a vida, ouvir meu coração e encontrar o que é relevante para mim dentro de todas as opções que existem neste planeta. Até porque acho que a gente vive um momento com tanta informação, que o cérebro da gente não dá conta.

 

Francisco:  Pois é, como você lida com isso, Marisa? Porque, como você falou, a gente vive num tempo de muita ocupação, de muita informação e a gente sabe que a história do pensamento e da arte está ligada ao ócio, ao vazio, à preguiça. Como é que você se protege disso, desse excesso de informação? Você tenta criar um vazio para poder criar?

 

 

Marisa:  Eu tento abrir um espaço para criar no cotidiano... Surge uma ideia quando você está dirigindo o carro, tomando banho, tocando violão sozinha... Você vai guardando aquele acervo de ideias ali e, às vezes, quando eu encontro com um parceiro, tem coisas que eu já comecei a fazer, que vamos fazendo juntos.

 

Francisco:  Você ouve muita música?

Marisa:  É engraçado porque tem toda uma dinâmica... Quando eu toco menos, eu escuto mais, e vice-versa. Quando eu gravo muito, eu escuto menos, porque já fico o dia inteiro no estúdio e quando chego em casa à noite não quero mais música. Quero ficar quieta, ler um livro. Mas tem sempre música presente. Eu agora tenho escutado bastante coisa porque não estou no estúdio o dia inteiro, então consigo ter vontade de ouvir, meu ouvido fica querendo escutar…

 

Francisco:  Sempre canção ou jazz, música clássica...?

Marisa:  Eu escuto muita música clássica. Eu gosto muito de piano solo. Chopin, Phillip Glass, Debussy, uns concertos… E escuto música de todos os tempos, como jazz, mas eu tenho ouvido também Melody Gardot, uma cantora americana que acho super interessante, Pink Martini, Antony & The Johnsons, Regina Spektor, Adele... Eu vou escutando coisas diferentes. Eu compro muita música no iTunes: Stevie Wonder, Al Green, Dusty Springfield, José Gonzales, Kings of Convenience, Mané do Cavaco, Mina, Nat King Cole, Originais do Samba, Tom Jobim, Dona Ivone, Clementina... Para mim, é muito legal essa facilidade de hoje em dia. Porque eu confesso que eu tinha preguiça de importar todos os meus CDs para dentro do computador. Então, hoje em dia, se eu quero ouvir alguma coisa, eu posso comprar na hora. É muito prático. Então, sei lá, de vez em quando eu fico com vontade de ouvir alguma coisa que eu não escuto há muito tempo, tipo Simon e Garfunkel. Vou lá e compro, posso escutar de novo, lembrar como é...

 

Francisco: Numa época, a Clarice Lispector fazia entrevistas com as pessoas e era meio sádica porque fazia perguntas impossíveis. Eu agora vou exercer um pouco do sadismo Clariciano com você, tá? São perguntas muito simples, mas são as mais impossíveis de todas. Então, eu queria te fazer duas ou três. Para começar, o que é a música?

Marisa:  Para mim é um meio de expressão, de comunicação, de transmissão de sabedoria, de filosofia, de pensamento, uma forma de união das pessoas. São ondas carregadas de emoções, de poesia. É interessante porque a matéria da música é muito abstrata. Não é como poesia escrita em papel, uma escultura de matéria, uma pintura que é tinta numa tela, uma coisa que é palpável. Ao mesmo tempo ela tem um poder transformador tão grande... Pelo menos na minha vida, ela é totalmente transformadora.

 

Francisco:  A última pergunta é da Clarice: o que é o amor?  

Marisa: O amor é uma forma de inteligência.

 

Francisco: Andy Warhol dizia que ser pop é gostar das coisas…

Marisa: É isso! Gostar é que é bom.